Nunca a bicicleta teve tanta atenção mediática em Portugal quanto neste momento. Entre novas revistas e jornais dedicados ao tema, reportagens na imprensa e um crescimento do número de pessoas a se fazerem transportar pela força do pedal, a bicicleta está na ordem do dia e a recentemente aberta Velo Culture afirma-se como um dos importantes promotores do veículo de duas rodas na cidade invicta (e não só).
Fundada por três amigos, a loja instalada no Mercado de Matosinhos vem apresentar um conceito original, marcado pela aposta na bicicleta enquanto meio de transporte urbano. Para além das bicicletas Wren, Flying Pigeon, Velorbis e as nacionais Órbita, entre outras, a Velo Culture oferece ainda uma série de acessórios para ciclistas urbanos, como os selins Brooks e os bonés da Flying Fat Man. O Editorial falou com Miguel Barbot, co-fundador da Velo Culture:
O Editorial: Como surgiu a ideia de abrir a Velo Culture? e qual o conceito da loja?
Miguel Barbot: A ideia surgiu quando eu e o Sérgio Moura estávamos a dar uma entrevista para o Porto Canal sobre a temática da bicicleta como meio de transporte. Depois da entrevista viemos a pedalar e a conversar sobre a Flying Pigeon e a dificuldade de encontrar material diferente em Portugal, especialmente aquele dedicado aos ciclistas urbanos. Meia dúzia de conversas depois, tínhamos tudo alinhavado. Circunstâncias da vida e a entrada de um novo sócio vieram acelerar o processo e, precisamente quatro meses depois, estávamos a abrir a loja. A Velo Culture está orientada para aqueles que seguem aquilo que gostamos de chamar bicycle lifestyle e é inspirada nos nossos gostos pessoais, que nada têm a ver com desporto. É uma loja cem por cento urbana – antítese do suburbano, representado magistralmente pelos hipermercados e centros comerciais onde estão alguns dos nossos concorrentes. É uma loja para quem vive a vida ao ritmo da bicicleta e aprecia a escala humana.
“Abrimos há poucos dias e já temos clientes regulares, apaixonados pelas biclas. São aqueles que chegam sem objectivo e ficam a conversar durante muito tempo, coisa que adoro fazer”.
Foi pela necessidade de trabalhar nessa escala humana que escolhemos o Mercado de Matosinhos, bem no coração desta cidade colada ao Porto, onde o comércio fervilha e as industrias tradicionais estão ainda presentes. Estamos numa zona onde a vida de bairro se recomenda e ao fim de três semanas estamos já totalmente integrados nesta malha social. Matosinhos é uma cidade totalmente ciclável e há uma cultura de bicicleta muito forte. Estando colados ao Porto de Leixões e gostamos de estar sentados a contar bicicletas a passar na Ponte Móvel.
Quais são os teus produtos favoritos na loja?
A loja tem uma gama de produtos ampla. Morro de amores pela Wren, uma shopping bicycle londrina que estamos a introduzir em Portugal. Simboliza aquilo em que acredito: uma cidade em que as pessoas tem tempo e calma para ir às compras de bicicleta e ainda por cima com estilo.
No campo das bicicletas, adoro também as Velorbis e a forma como são simples e ao mesmo tempo sofisticadas. Tínhamos uma verde, que não está na colecção de 2012, que eu adorava e tinha o desejo (não tão) secreto de ficar com ela para mim. Feliz ou infelizmente, foi vendida hoje.
Passo horas a brincar com os selins Brooks e a sonhar com biclas lindas equipadas com um Team Professional Special. A Brooks é uma aposta que fizemos e que tem corrido bem. Basicamente, passas a vida a sonhar com aquilo e quando os tens na mão queres comprar. É uma parte importante da história da bicicleta que temos nas prateleiras da loja.
Os livros e revistas são também uma parte da oferta que gosto muito. O meu sonho é ter muito brevemente uma grande colecção dedicada à bicicleta como objecto e ao espírito mais clássico e romântico da coisa.
“Adoptei a bicicleta como meio de transporte há uns dois anos. Fi-lo porque o meu pai já o fazia, porque queria um complemento às minhas corridas (costumo correr e este ano fiz uma maratona), gastar menos dinheiro e aproveitar melhor o meu commuting, sem depender dos humores do trânsito e do radialista de serviço na estação favorita”.
O que dirias para convencer alguém a trocar o carro pela bicicleta?
Digo para experimentarem uma semana, trocando parte dos trajectos de carro pela bicicleta. Nem que seja ir à mercearia ou tomar café. Se a pessoa não estiver disposta a experimentar em percursos pequenos, não vale a pena insistir. Um dia quando repararem que muita a gente o faz, mudam de ideias. De qualquer forma, através do meu blogue, tenho conseguido converter umas quantas pessoas.
Qual foi a coisa mais estranha que fizeste com uma bicicleta?
Já tive algumas aventuras recentes na bicicleta, como esta aqui. O mais estranho acho que foi carregar sacos de compras cheios presos no cinto das calças e um garrafão de água de 5L no top tube da minha bicicleta, que é de corrida e não tem porta-cargas. Não sei muito bem como o consegui, mas consegui.
“Matosinhos é um espanto. Há uma simbiose muito boa entre a cidade e a bicicleta. As pessoas estão habituadas a ciclistas e somos respeitados. Em ruas com mais peões, raramente há problemas porque a bicicleta é uma constante e uma coisa com que contam. É muito bom ir ao comércio tradicional e não ter grandes preocupações. Faz-se tudo bem de bicicleta. Para ir para a loja passo na Rua Brito Capelo todos os dias. Há 30 anos ainda era como na gravura, já que todo o pessoal das conserveiras utilizava a bicicleta”.
O que deverão as cidades portuguesas fazer para se tornarem mais amigas das bicicletas?
Mais estacionamento e menos paralelo. Algumas bike-lanes em zonas mais pesadas e uma análise aos sentidos de trânsito também ajudavam. O Porto (e Matosinhos) seria muito mais ciclável se se invertessem alguns sentidos de trânsito para tornar os percursos mais adaptados (evitando subidas acentuadas, por exemplo). O resto é estética. Os carros vão-se habituando à nossa presença.
Quais os teus locais favoritos no Porto?
A Baixa, claro, especialmente a sua zona mais Oriental, perto da Av. Rodrigues de Freitas. Gosto da mistura social, das ilhas e das pessoas novas que gostam de lá viver. O desenho urbano, quase falhado, é fantástico, com as grandes avenidas e alamedas arborizadas.
À noite, se não andar a saltar de bar em bar como sempre, vou ao Plano B.
O Mercado de Matosinhos é um local de eleição para compras, claro e o Museu Soares dos Reis, além de ser de visita obrigatória, é um sítio maravilhoso para almoçar ao fim-de-semana. Adoro o meu bairro!
Texto: Álvaro Tavares Ramos
Fotos: Velo Culture



Da próxima vez que for ao Porto vai ser um dos locais a visitar, sem dúvida!
100% de acordo!
[...] Nunca a bicicleta teve tanta razão de ser quanto a este momento. Partilhar isto:PartilharEmail [...]
Obrigado pela divulgação!
gosto do uso da expressão “bicla”, bem à norte! excelente conceito: “é inspirada nos nossos gostos pessoais, que nada têm a ver com desporto. É uma loja cem por cento urbana – antítese do suburbano, (…). É uma loja para quem vive a vida ao ritmo da bicicleta e aprecia a escala humana”.
um abraço, dg
Também gosto muito da loja! O Miguel Barbot deu excelentes respostas…
Abraço
Visita obrigatória.
Sem dúvida!
Obrigado a todos e em especial ao Álvaro, a quem felicito por este excelete espaço. Paulofski, vemo-nos logo na Massa Crítica!
Obrigado eu Miguel! Estás de parabéns pela loja e gostei imenso de te fazer a entrevista… também vou à Massa, mas em Lisboa
[...] fora. Como bom vaidoso que sou, gosto de aparecer no meio de tanto coisa fixe. Fica a parte da entrevista cuja publicação aqui na Adega não pode ser considerada [...]
[...] projectos. Desde a Lobo Taste e a WE Rota do Chá à Velo Culture, onde estive à conversa com Miguel Barbot, o Porto continua a ser um local de referência no que diz respeito ao melhor retalho nacional. O [...]